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Quase 80% dos aluguéis nas capitais não são declarados à Receita

Apenas dois em cada dez imóveis residenciais alugados nas capitais brasileiras geram renda declarada à Receita Federal, de acordo com estudo publicado pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que aponta um índice de evasão de 79%. Em todo o Brasil, o número chega a 85%.

Os valores recebidos e não declarados são estimados em 56% dessa renda nas capitais e 64% para todo o país. São pelo menos R$ 65 bilhões não informados, cerca de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).

Não há cálculo para o valor dos tributos sonegados, uma vez que o imposto depende da soma dos ganhos de cada proprietário. Os aluguéis são tributados pela tabela progressiva do Imposto de Renda, que prevê isenção para valores de até R$ 5.000 e imposto de até 27,5% para rendas acima disso.

Os resultados foram obtidos a partir do cruzamento de três bases de dados, que apontam diferenças entre o que os brasileiros declaram nas pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e os dados entregues à Receita.

Há informações sobre número de residências alugadas, segundo o Censo Demográfico, e das despesas com essas locações na POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), ambas do IBGE. Esses dados foram comparados com a Dimob (Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias), documento entregue pelas imobiliárias à Receita.

Os números apontam diferenças regionais. Os maiores índices de evasão estão em Manaus (99%), Boa Vista (98%) e São Luís (98%). Porto Alegre é a capital com o menor percentual (23%). Entre as metrópoles, o Rio de Janeiro lidera (82%), seguido de São Paulo e Brasília (ambas com 75%).

ÍNDICE DE EVASÃO FISCAL POR CAPITAIS (2023)

99 – Manaus
98 – Boa Vista
98 – São Luís
97 – Belém
97 – Maceió
95 – Rio Branco
95 – Macapá
95 – Salvador
94 – Natal
93 – João Pessoa
93 – Recife
92 – Porto Velho
91 – Palmas
91 – Cuiabá
89 – Aracaju
87 – Campo Grande
85 – Fortaleza
83 – Goiânia
82 – Rio de Janeiro
75 – Teresina
75 – Vitória
75 – São Paulo
75 – Brasília
55 – Belo Horizonte
51 – Florianópolis
47 – Curitiba
23 – Porto Alegre
79 – Capitais
85 – Brasil
Fonte: Descobrindo a evasão fiscal no mercado de aluguéis residenciais brasileiro: uma análise a partir do Censo, POF e Declaração de Atividades Imobiliárias

Uma das explicações para a alta evasão no Brasil é a informalidade. Apenas 21% dos contratos de aluguel passam por imobiliárias e chegam à Receita por meio da Dimob. Outros 50% são acordos verbais. O restante inclui, por exemplo, aqueles intermediados por imobiliárias informais ou por pessoas físicas, como corretores e advogados.

Isso resulta em um Índice de Informalidade Contratual de 78,5% no Brasil (71,6% só nas capitais). “A evasão nas rendas de aluguel é uma regra, e ela é uma face da informalidade da economia brasileira”, afirma Ana Luiza Nabuco, pesquisadora do Cedeplar (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional), da UFMG, e uma das autoras do estudo.

O trabalho é assinado também pelo pesquisador do Cedeplar Renan Almeida, pelo servidor do IBGE Luiz Paixão, e pelo consultor Marcelo Brandão.

PROBLEMA MUNDIAL

Nabuco afirma que a alta evasão de rendas de aluguel não é uma particularidade nacional. Mesmo nos Estados Unidos e em países europeus, os valores são elevados —o índice é de 51% da renda no caso americano.

A sonegação também não é uma questão conjuntural, mas um problema estrutural, que revela a dificuldade em tributar essa renda em qualquer país.

Os números revelam ainda um problema de justiça fiscal e desigualdade socioeconômica no mercado imobiliário brasileiro. As famílias nos estratos inferiores de rendimento possuem despesas com aluguel substancialmente superiores às receitas provenientes dessa fonte. A lógica se inverte nos estratos superiores, nos quais a receita com aluguéis supera a despesa.

Esse cenário confirma que, enquanto a população de menor renda é predominantemente inquilina, os estratos mais ricos concentram a propriedade e os rendimentos imobiliários.
“Os dados mostram que tributar a renda de aluguéis no Brasil significa tributar em particular os estratos superiores de renda. Basta olhar o perfil dos proprietários e locadores”, afirma a pesquisadora.

Ela destaca que o Brasil criou vários instrumentos para combater essa evasão nos últimos anos, como as diversas declarações entregues à Receita, e que há novas ferramentas que começarão a funcionar a partir de 2026 e 2027.

Entre elas estão a tributação da locação por grandes proprietários pelo IBS da reforma tributária, aprovada no governo Lula (PT), e os cadastros já criados: o CIB (Cadastro Imobiliário Brasileiro) e o Sinter (Sistema Nacional de Gestão de Informações Territoriais), que reúnem dados de todos os imóveis do país, com identificação única.

FORMA DE MORADIA QUE MAIS CRESCE

Os autores destacam que o tema ganha relevância em um cenário mundial de transformação dos mercados imobiliários, que inclui o aumento das famílias residindo em imóveis alugados, especialmente depois da crise econômica de 2008.

No Brasil, por exemplo, o Censo mostra que o aluguel foi a forma de moradia que mais cresceu, passando de 14% em 2000 para 22% em 2022. O país tinha, no ano da pesquisa, mais de 16 milhões de domicílios alugados —praticamente um domicílio a cada cinco.

Eles afirmam que é muito difícil medir a sonegação, por se tratar de algo ilegal, portanto, não declarado, e apontam algumas limitações impostas pelas bases de dados.

Primeiro, a diferença entre os períodos de coleta: 2023 para a Dimob, 2022 para o Censo e 2017-2018 para a última POF. Outra questão é que foram computados na evasão todos os imóveis residenciais alugados sem intermediação de imobiliárias e não declarados ao fisco na Dimob, embora seja possível que alguns aluguéis informais tenham o imposto recolhido.

Um terceiro ponto é que a declaração ao fisco não distingue aluguéis residenciais e comerciais. Foi considerado, portanto, que sempre que o locatário for pessoa física, o aluguel é residencial, critério validado pela Receita em reunião com os pesquisadores.

Segundo os autores, apesar das limitações, a proximidade entre os índices calculados para evasão fiscal e informalidade contratual confirmam a relevância do problema e indicam o alto potencial fiscal de medidas que reduzam a sonegação de tributos sobre essas rendas.

“Políticas de combate à sonegação de rendas de aluguéis, que certamente enfrentam resistências por parte do mercado imobiliário, têm impactos positivos no orçamento público, na redução de desigualdades sociais e em políticas habitacionais”, afirma Nabuco.

Fonte: Jornal de Brasilia

Mundo atinge recorde de bilionários: “Bolha vai afetar mais vulneráveis”, diz especialista

Os ricos estão cada vez mais ricos. O aviso feito com humor por um grupo de axé music em 1999 dominou as rádios brasileiras numa época em que a tradicional lista de super-ricos da revista Forbes trazia menos de 500 bilionários, que, juntos, não somavam sequer 1 trilhão de dólares. No levantamento de 2026, lançado em março, a Forbes já lista 3.428 bilionários, sete vezes mais do que na época do hit carnavalesco de “As Meninas”, e os integrantes da lista somam um patrimônio de 20 trilhões de dólares, o equivalente ao PIB da China ou a oito vezes a economia do Brasil.

A lista ganhou 400 novos nomes em um ano, é liderada pelo magnata Elon Musk, que caminha para se tornar o primeiro trilionário da história, e conta com 71 nomes brasileiros, 16 a mais do que em 2025. Juntos, apenas os brasileiros listados concentram uma riqueza superior a R$ 1,5 trilhão. A lista completa de bilionários brasileiros pode ser conferida no fim do texto.

O mais rico bilionário de origem brasileira segue sendo Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook, que acumula 35,9 bilhões de dólares (R$ 185,6 bilhões). O segundo lugar na versão nacional da revista coube à herdeira do Banco Safra, Vicky Safra, grega naturalizada brasileira, que acumula 27,1 bilhões de dólares (R$ 140,1 bilhões), um montante maior do que o orçamento do município de São Paulo para todo o ano de 2026. Na lista internacional, diferentemente dos anos anteriores, ela passou a ser contabilizada pela Grécia.

Professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Antonio David Cattani dedicou parte da carreira acadêmica a estudar os super-ricos – algo raro na área da ciência social, em que a pobreza costuma ser um tema mais recorrente. Em entrevista à Agência Pública, o autor dos livros “A Riqueza Desmistificada” (2013) “Ricos, Podres de Ricos” (2017) e “Carí$$imos Ricos” (2019) vai na contramão do “tom apologético” que a lista da Forbes costuma ganhar nas manchetes e descreve o avanço da concentração de riqueza como incompatível com o regime democrático e “nefasto” para a economia.

“[Os bilionários] conseguem manipular as eleições, os governos, e escapar de todos os controles elementares que a democracia, bem ou mal, foi construindo nesses últimos anos. Isso, com o tempo, é um caminho para o desastre, que infelizmente vai afetar mais as pessoas vulneráveis, assalariados, aposentados e pequenos empresários. Esse deve ser o alerta que o jornalismo, a universidade, os intelectuais, os sindicalistas têm que levantar: não se caminha para uma situação de equilíbrio. Pelo contrário, estamos caminhando de forma acelerada para a beira de um precipício”, avalia.

Para o pesquisador, parte da concentração de riqueza está ligada a “uma dimensão especulativa”, com empresas com valores de mercado artificialmente muito maiores do que sua capacidade produtiva. “Por isso, há centenas de analistas de várias áreas e tendências ideológicas dizendo que vai estourar uma bolha, que não corresponde à realidade da economia, [com a possibilidade de] termos a repetição de uma crise como a de 2008 ou como a de 1929. A grande questão é que ninguém sabe quando”, afirma.

Confira os principais destaques da entrevista.

Estamos perto de ter o primeiro trilionário da história e a lista da Forbes chegou a 3.428 bilionários. Por que há cada vez maisbilionários?

É um processo internacional que vem se acentuando desde os anos 1980. Milionários sempre existiram, mas o que chama a atenção é essa proliferação de figuras desconhecidas, com negócios que a gente nem sabia que permitiam uma acumulação tão grande de riqueza. O que é importante é o aumento exponencial da riqueza e a velocidade desse processo.

No início do século 20, os bilionários americanos e ingleses levavam anos para construir os seus impérios. [Hoje,] os processos especulativos e as inovações tecnológicas fazem com que, em questão de meses, um jovem de 30 anos vire bilionário.

Há uns 10 anos, o pessoal que faz essa revista [Forbes], a edição original americana, colocou uma nota metodológica que é muito interessante. A nota dizia que, apesar de todos os recursos que a própria Forbes tem, eles não conseguiam identificar muitos dos ricos, porque há uma parte que não tem interesse na divulgação. Outros têm, é uma questão de prestígio, às vezes até como uma estratégia de mercado, de ostentar a riqueza.

Mas o pessoal da Forbes assumia que existe um outro universo, quase paralelo, de ricos que têm o maior interesse em passar despercebidos. [A lista] já surpreende pela quantidade, pelo volume de riqueza, mas nós temos que considerar que existem muito mais.

Um apontamento que aparece em alguns textos é de que o processo de aumento da quantidade e dos recursos dos bilionários tem a ver com uma financeirização da economia. É por aí?

Nunca existe uma causa única. São vários processos. Eu diria que uma parte dessa nova riqueza está ligada às inovações tecnológicas, áreas de negócios que antes eram inimagináveis, não tinham nem sentido, e [hoje] propiciam essa acumulação de riqueza. Outro aspecto, normalmente associado, é a questão da financeirização. Esses multimilionários não só extraem recursos e rendimentos de atividades físicas, serviços, indústria, mas também com uma dimensão especulativa na área financeira.

Se pensarmos em algumas das fortunas do Vale do Silício nos Estados Unidos, o rendimento que as empresas propiciam não corresponde ao seu valor de mercado. Por exemplo, um serviço de informática, uma inovação tecnológica, que renda, digamos, 100 milhões de dólares por ano, mas que tem seu valor de mercado, das ações negociadas em bolsa, podendo chegar a US$ 1 bilhão ou até a US$ 10 bilhões. Não há uma correspondência entre esse valor nominal que circula e a base concreta de prestação de serviço ou geração de algum produto industrial. É especulativo. Vende as ações, negocia, faz uma fusão, etc., mas é uma espécie de castelo de cartas que não tem fundamento sólido.

Por isso, há centenas de analistas de várias áreas e tendências ideológicas dizendo que vai estourar uma bolha que não corresponde à realidade da economia, [com a possibilidade de] termos a repetição de uma crise como a de 2008 ou como a de 1929. A grande questão é que ninguém sabe quando.

A [explosão dessa] bolha vai afetar os mais vulneráveis. Alguns grandes quebrarão, perderão parte do seu patrimônio, mas os verdadeiramente ricos, nas Big Techs, no setor financeiro, têm um leque de investimentos que garantem que, mesmo com uma crise, uma guerra, eles continuem mantendo seu patrimônio.

O noticiário brasileiro nos últimos meses só fala de Banco Master e Daniel Vorcaro. A despeito de não constar na lista de bilionários da Forbes, as informações que temos é de que ele tinha um patrimônio vultoso, na casa dos bilhões, e que utilizava esse poder econômico para se blindar e influenciar o poder político. Paralelamente, vemos nos EUA os donos das Big Techs, que têm patrimônios na casa das dezenas e centenas de bilhões, com uma relação umbilical com o governo Trump. Essa concentração de riqueza é compatível com o regime democrático?

Não, absolutamente não. Isso levanta a questão mais grave quando se trata de analisar a riqueza concentrada. O princípio de organização dessa dinâmica mais recente do capitalismo é de uma ganância sem fim. Mesmo que contribuam para uma política suicida, para a ampliação da bolha especulativa que vai explodir, esse pessoal não tem freios.

Imagina alguém que tenha um bilhão, que esse um bilhão renda, não sei, 100 milhões. Humanamente é impossível aproveitar uma riqueza nesse volume. Ele pode ter 30 casas, meia dúzia de jatinhos, mas humanamente ele não vai poder visitar todas as suas casas, comer tudo que tem de imaginável e de caríssimo no mundo. Mesmo assim, eles continuam querendo mais. Agora vai ser um iate um pouquinho maior, depois vai ser uma casa em Aspen, um castelo no sul da França, uma fazenda maior, que vai render mais ainda. É uma ganância sem limite.

E, para manter essa dinâmica, eles precisam, sim, de um respaldo político, de comprar impunidade em face aos crimes que eles cometem, de influenciar governos, ministros, deputados para que não haja tributação justa, que não haja controle. E essa dimensão é nitidamente criminosa, não tem outra palavra. Pode-se dizer que estão gerando emprego e renda, mas é uma dimensão incontrolável. Eles tentam escapar dos controles e vai chegando a uma coisa amplamente destrutiva.

Se a gente ouvir as declarações desses grandes da Big Techs, é uma coisa assim… são criminosos, assumidamente criminosos. Eles querem ampliar o seu poder às custas de uma desumanização de milhões de trabalhadores, de pessoas sem recursos. É uma coisa insaciável, eles querem mais e mais – como sempre foi no sistema capitalista, mas agora está chegando a uma dimensão, não vou dizer autodestrutiva, porque eles vão se safar, mas destrutiva da civilização, da natureza, da cultura.

A cultura está sendo bestificada para que não haja movimentos mais contestadores. E o que assusta é a velocidade. O que levava décadas agora acontece em meses.

Nesse cenário, em que algumas figuras conseguem direcionar a inovação, a tecnologia e a própria agenda pública, é possível termos uma sociedade justa?

Eu tenho uma frase em um livro que diz exatamente isso. “Não é possível, é necessário”. Mesmo que pareça impossível, combater esse tipo de dinâmica e de comportamento empresarial é uma necessidade de sobrevivência. Existem mecanismos muito simples, que começam a iniciar uma mudança, como o trabalho que você está fazendo, que não é o trabalho jornalístico deslumbrado, que falsifica. A primeira solução é essa, um trabalho de esclarecimento.

A outra questão é mais técnica. Cerca de 10 anos atrás foi criado o Instituto de Justiça Fiscal – e inclusive tem figuras proeminentes, que têm participado do debate público, e que trabalham com uma perspectiva bem pé no chão, que é “vamos taxar a riqueza”. O que acontece? A maioria dessas empresas, desses multimilionários, tem assessorias fiscais para evitar o pagamento de imposto na proporção que eles teriam o dever de contribuir. Um assalariado que ganha R$ 10 mil paga proporcionalmente muitíssimo mais.

“Ah, mas já houve a tributação na empresa”. Não interessa. A riqueza sobre a qual nós estamos falando é uma que as pessoas recebem. Imagine alguém recebendo R$ 1 bilhão por ano de rendimentos que são isentos. Um único indivíduo recebendo 1 bilhão. Qual é o orçamento aí da Agência Pública? Vocês com um bilhão, o que daria para fazer?

A gente falou um pouco dos efeitos na própria democracia, na construção de uma sociedade justa, mas em uma entrevista que o senhor deu para a BBC, anos atrás, outros efeitos são citados, como na própria economia…

Esse tipo de concentração é nefasta para a economia. Primeiro, há o aspecto negativo de pessoas recebendo uma miséria, quando poderiam ter um padrão de vida melhor, já que quem produz a riqueza a está transferindo de forma coletiva para indivíduos que têm essa capacidade de se apropriar do trabalho coletivo. Mas a economia como um todo está ficando disfuncional com essa desproporção de poder, que já não é um poder democrático.

[Os bilionários] conseguem manipular as eleições, os governos, e escapar de todos os controles elementares que a democracia, bem ou mal, foi construindo nesses últimos anos. Isso, com o tempo, é um caminho para o desastre, que infelizmente vai afetar mais as pessoas vulneráveis, assalariados, aposentados e pequenos empresários. Esse deve ser o alerta que o jornalismo, a universidade, os intelectuais, os sindicalistas têm que levantar: não se caminha para uma situação de equilíbrio. Pelo contrário, estamos caminhando de forma acelerada para a beira de um precipício.

Dá para relacionar essa concentração de riqueza ao “sentimento” da população global? Em outras palavras, o avanço de ideias extremistas, muitas vezes reacionárias, tem alguma relação com essa dinâmica, uma certa percepção de que não dá pra vencer na vida enquanto os ricos “ficam cada vez mais ricos”?

O meu último ensaio acadêmico se chama “A Síndrome do Mal”. Ele trata não tanto sobre a questão da concentração de riqueza ou o papel dos bilionários mas dessa volta de um… volta não, de um reacionarismo que sempre esteve presente e que agora pode ser mobilizado e potencializado pelas grandes fortunas.

Por exemplo, o Véio da Havan. Ele [Luciano Hang] usa o seu poder tanto para ampliar a sua empresa, quanto para fortificar uma imagem reacionária, fascista. O foco [do ensaio] é nesse sentimento de parte da população, que é um sentimento autoritário, são crenças obscurantistas, discriminatórias, elitistas. Isso sempre existiu, mas por que aparece agora? Porque tem apoio. O troglodita do vizinho, do parente, os bolsonaristas já estavam ali, só precisaram de uma certa mobilização. E essa mobilização vem, em parte, dessas figuras que controlam o poder econômico.

Quando a Forbes levou ao ar a lista de bilionários brasileiros em 2025, a publicação disse o seguinte: “a chegada de novos nomes na lista de bilionários deve ser especialmente comemorada, mostra a renovação dos negócios, a circulação de capital (…), mostra que a economia brasileira ainda oferece oportunidades a quem se dispõe a explorá-las”. Há essa imagem de bilionários que chegaram lá graças ao seu esforço, ao seu trabalho. Na prática, é por aí? Qual é o perfil dos bilionários?

Parte do fenômeno é, sim, de gente inovadora, que teve uma sacada em algum negócio. Isso existe. Agora, o que não aparece [destacado na publicação] da Forbes é a questão da herança, de uma série de personagens que já são a segunda ou a terceira geração, que o avô era milionário e o pai era bilionário. Eles podem ter a capacidade de administrar isso e ampliar seus negócios, ou simplesmente usufruir do bom e do melhor sem fazer força. Eles só têm que ter os seus ajudantes, serviços de planejamento tributário, administradores, advogados e etc.

Eu acho que é importante mostrar que o quadro apologético que apresentam as revistas e o caráter deslumbrado de parte da grande imprensa é completamente equivocado. “Eles conseguiram, todo mundo consegue” ou “ficou bilionário por esforço próprio”. É uma coisa de culpabilizar os pobres pela sua pobreza e valorizar os ricos pela sua riqueza. O quadro é bem mais complicado, de relação de força e de poder.

O próprio Bill Gates, inventou uma maravilha, mas depois, o crescimento só foi possível porque ele destruiu parte da concorrência. Parte das inovações da Microsoft foram conseguidas com golpes de força, comprando ou destruindo concorrentes, construindo praticamente um monopólio.

A partir de um volume fantástico de riqueza, não existe mais livre concorrência, mas simplesmente situações de poder que, com o tempo, como no caso da Microsoft, se revelam ineficientes para a economia. Poderia haver a prestação de serviços de forma bem mais barata, mais racional, se não houvesse esse monopólio.

Quando o governo brasileiro trouxe a proposta de isentar o imposto de renda para quem paga até 5 mil e estabelecer uma tributação mínima para os super-ricos, quem era contrário se apoiou na tese de que os ricos iriam levar seu dinheiro para outros países. Há, em nível global, uma discussão sobre um imposto que evite esses subterfúgios. Como fazer com que isso aconteça frente a multibilionários que utilizam poder econômico e influência política contra a proposta? Há uma perspectiva de frear essa dinâmica de ricos cada vez mais ricos ou essa é uma tendência que se mostra irreversível?

Nada é irreversível quando se fala da humanidade. Foi uma construção histórica e, com muita luta, poderá ser mudada. Agora, em relação à ideia de que [a taxação provocaria] a transferência de patrimônios e empresas para outros países, isso é um engodo completo, eles não conseguem fazer isso. É o mesmo discurso na França, na Suíça, nos Estados Unidos. “Ah, se tiver tributação, vamos embora”. Não vão embora.

Vamos pegar o caso do agronegócio brasileiro. Esses empresários vão para onde? Para o Texas? Não, vão continuar aqui. Eles podem estar morando em Miami, mas o locus da sua atividade é sempre nacional. Ele pode tentar transferir parte do dinheiro para outros lugares, mas eles não vão sair. Isso é simplesmente para ameaçar. “Ah, faremos isso e a economia vai desandar”. Não, não vai.

Tem que taxar. Ninguém está propondo a guilhotina para esse pessoal. Estão simplesmente propondo que paguem impostos, como todos os outros pagam, que contribuem para o bem comum, para a infraestrutura do país. Normalmente quando se fala em imposto, se pensa muito em imposto de renda, em IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados], etc. Mas tem um imposto muito importante, que é o de transmissão [de heranças], e que o Brasil tem uma das taxas mais baixas do mundo.

Imagina, um multimilionário deixa uma fortuna de ações, propriedades, transmite para os seus herdeiros e não paga nada? Só no Brasil. No Japão, na Suécia, na Finlândia e nos próprios Estados Unidos, o imposto de sucessão é considerado justoe, dependendo do país, vai de 20%, 30%, até 40%. Claro, [os super-ricos] conseguem contornar em partes, mas não tem como escapar desse imposto. O herdeiro recebeu alguns bilhões, vai pagar alguns milhões, mas paga. Aqui no Brasil, a transmissão é praticamente isenta. Mesmo que a pessoa pague a taxação oficial, ela é muito baixa, de 6, 7, 8%, até menos, a depender do estado.

[Para fazer frente à concentração de riqueza] é preciso coisas bem objetivas, mas que não passam no Congresso, porque quem tem alguns bilhões tem alguns prepostos no Congresso que barram esse tipo de taxação mínima – que é considerada comum, normal e justa em países que eles mesmos admiram como os Estados Unidos e a Inglaterra. Não é nada de outro mundo, são medidas bem prosaicas, mas que são necessárias para avançarmos um pouquinho em termos de justiça social.

Confira o levantamento completo dos bilionários listados pela Forbes no Brasil

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Fonte: Agencia Pública

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Karla Borges publica artigo no Jornal A Tarde sobre o novo tributo dos imóveis

O governo vai virar dono de supermercado? 

Ao que parece, em Nova York, sim. Esse é o plano que o recém-eleito prefeito Zohran Mamdani vai colocar em prática nos próximos meses. 
A ideia é construir supermercados de propriedade da prefeitura para combater a inflação dos alimentos — que na cidade subiu 66% na última década. 
A estratégia vai funcionar em um modelo híbrido: a cidade é a dona do imóvel, mas um operador privado cuida do dia a dia. 
O supermercado vai vender de tudo, de chocolate a detergente. Mas, por contrato, itens básicos como leite, pão e ovos têm que ser vendidos pelo preço que o mercado pagou no atacado. 
A proposta divide opiniões…
De um lado, a prefeitura defende que a medida é vital para eliminar “desertos alimentares” em bairros onde grandes redes não operam por falta de lucro. 
Do outro, donos de pequenas lojas de conveniências temem que o subsídio estatal crie uma concorrência desigual, enquanto parte da população questiona prioridades, citando a crise de habitação que a cidade enfrenta. 
Bottom-line: A primeira unidade será no Harlem. Além dessa, Mamdani afirma que pretende abrir um supermercado municipal em cada um dos cinco distritos de NY até o final do seu mandato, com um custo total estimado em cerca de US$ 70 milhões.

Fonte: The News

Receita Federal publica “Perguntas e Respostas IRPF 2026” com orientações atualizadas aos contribuintes

A Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil informa que já está disponível em seu site oficial a publicação “Perguntas e Respostas IRPF 2026”.

O material foi elaborado com o objetivo de auxiliar os contribuintes na correta elaboração da Declaração de Ajuste Anual do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (IRPF), referente ao exercício de 2026, ano-calendário de 2025. A publicação complementa a legislação tributária vigente, bem como os manuais e instruções relacionados ao IRPF.

A edição de 2026 reúne um total de 745 perguntas e respostas, abordando dúvidas frequentes sobre o preenchimento da declaração. Em relação à versão anterior, foram incluídas novas questões e realizadas diversas atualizações, refletindo alterações na legislação tributária e o aprimoramento das orientações prestadas aos contribuintes.

A Receita Federal recomenda a consulta ao material por todos os cidadãos que estejam obrigados a declarar, bem como por profissionais da área contábil, como forma de garantir maior segurança e conformidade no cumprimento das obrigações fiscais.

O conteúdo completo pode ser acessado diretamente no site da Receita Federal.

Fonte: GOV

Fortaleza e João Pessoa se destacam no mercado de luxo imobiliário do Nordeste

O mercado imobiliário residencial de luxo e superluxo encerrou 2025 com recordes históricos nas capitais brasileiras. Foram vendidas 10.607 unidades acima de R$ 2 milhões, que movimentaram R$ 52,2 bilhões nas capitais, alta de 35% em relação a 2024. O volume equivale a 29,4% de todo o valor negociado no mercado residencial.

Do lado da oferta, as incorporadoras também aceleraram: 11.696 novas unidades foram lançadas, com potencial de vendas de R$ 58 bilhões, alta de 36% em relação ao ano anterior, patamar nunca antes alcançado.

Os dados são de um estudo inédito da Brain Inteligência Estratégica e obtido com exclusividade pela Forbes Brasil. Eles mostram que o desempenho deste mercado em todas as capitais do país foi muito superior à média geral, que avançou 13%.

São considerados imóveis de luxo e superluxo aqueles com valores acima de R$ 2 milhões. Com isso, quando se analisa o volume total de vendas nas capitais de 282.996 unidades em todas as faixas de preço, os 10.607 imóveis comercializados com valores acima desse corte de R$ 2 milhões representam apenas 3,75% do total. Em número de unidades, portanto, trata-se de um mercado de nicho

O CEO da Brain afirma ser mito que imóveis luxuosos da costa nordestina sejam destinados apenas para pessoas de outros estados em busca de uma segunda moradia. “ A maior parte das vendas na região atende à demanda da própria elite local por uma primeira moradia sofisticada”, diz.

Nesse cenário, quem mais vem se despontando no mercado de alto padrão é Fortaleza. É o local onde atua a Moura Dubeux, empresa que vem se destacando no mercado de alto padrão na região Nordeste. Em relatório, o Bradesco BBI indica que a empresa é uma das líderes do segmento no Brasil, e que os projetos de luxo e superluxo devem concentrar 70% dos lançamentos deste ano, estimados em aproximadamente R$ 3,5 bilhões.

Em João Pessoa, quem vem fazendo movimento semelhante é a construtora Setai, que vem se firmando como a principal protagonista da verticalização de luxo. Prova disso é o lançamento da primeira torre da Aston Martin, marca eternizada no imaginário global como os carros de James Bond, que escolheu a capital paraibana para o seu primeiro projeto na América do Sul.

Fonte: Forbes

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Florianópolis, Porto Alegre e Salvador são as capitais com mais pessoas morando sozinhas

Os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGEapresentaram duas realidades distintas sobre a composição dos lares em Santa Catarina, onde ao mesmo tempo que o estado carrega a maior proporção de domicílios (69,3%) com um único núcleo familiar – casais com ou sem filhos e sem presença de outros parentes – Florianópolis se tornou a capital com maior percentual de moradias onde reside somente uma pessoa (30,5%).

Os números da PNAD Contínua foram divulgados a última sexta-feira (17) e trazem um retrato das transformações demográficas e familiares que vêm se consolidando no país

Enquanto os lares com núcleos familiares seguem sendo a maioria dos domicílios brasileiros , houve avanço expressivo nos lares unipessoais,

Em Florianópolis, a proporção é ainda maior, de 30,5% – ou seja, de cada 10 domicílios na cidade, em três deles os moradores vivem sozinhos. A capital catarinense é a única do país a ultrapassar os 30% e é seguida por Porto Alegre (28,8%), Salvador (27%) e Vitória (26,4%).


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Fonte: G1

Salvador recebeu hoje mais de 100 milhões da União de FPM, totalizando 674 milhões em 2026

Os municípios brasileiros partilham, nesta segunda-feira (20), R$ 2,2 bilhões referentes ao segundo decêndio de abril do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O valor é quase 2% menor do que o transferido no mesmo período do ano passado, quando o montante foi de R$ 2,3 bilhões.

Os recursos do FPM são formados por parcelas arrecadadas pela União por meio do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Os coeficientes de participação de cada município são definidos pelo Tribunal de Contas da União (TCU), com base principalmente no número de habitantes, conforme dados oficiais.

Os municípios da Bahia receberam quase 800 milhões, sendo que mais de 100 milhões foram destinados a capital baiana. Os valores do FPM são creditados aos municípios a cada dez dias. Quando a data prevista coincide com fim de semana ou feriado, o repasse é realizado no primeiro dia útil anterior.

Confiram no quadro!

Fonte: Brasil 61

Quando o tempo decide: o poder eleitoral dos idosos no Brasil contemporâneo

Há uma transformação silenciosa em curso no Brasil. Não se anuncia com estridência, não ocupa manchetes diárias, não se converte em espetáculo. Mas avança com a consistência das marés, com a força inevitável da demografia, com a densidade histórica de quem acumulou décadas de experiência. O país envelheceu. E, mais importante, o eleitorado envelheceu.

A pesquisa que revela esse cenário foi produzida pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, com base em dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se de um levantamento rigorosamente quantitativo, estruturado a partir da base do cadastro eleitoral brasileiro, com coleta realizada em 1º de março de 2026.

A própria metodologia registra que os dados de 2026 são parciais, pois o cadastro segue aberto até 6 de maio. Não há aqui opinião, nem intenção de voto, nem projeção subjetiva. Há leitura direta da realidade empírica. Há demografia convertida em política.

Em 2010, o Brasil tinha 135,8 milhões de eleitores. Em 2026, chega a 156,2 milhões. Um crescimento de cerca de 15%. Mas o dado decisivo não está aí. O dado decisivo está no salto do eleitorado com 60 anos ou mais. Eram 20,8 milhões em 2010. São 36,2 milhões em 2026. Um crescimento de 74%. Uma expansão quase cinco vezes maior que a do conjunto do eleitorado.

Não se trata de um detalhe estatístico. Trata-se de uma mutação estrutural. Os idosos deixaram de ser margem. Tornaram-se centro.

Em 2010, representavam 15,3% do eleitorado. Em 2014, 17,0%. Em 2018, 18,8%. Em 2022, 21,0%. Em 2026, alcançam 23,2%. Quase um em cada quatro eleitores brasileiros é idoso. Um quarto do país eleitoral carrega o tempo no corpo, na memória, na linguagem, na forma de perceber o mundo. Ignorar isso é mais do que um erro. É uma cegueira política.

Mas há algo ainda mais sutil. Não existe um único eleitor idoso. Existem dois mundos dentro dessa mesma categoria. De um lado, 19,7 milhões de pessoas entre 60 e 69 anos, cujo voto é obrigatório. De outro, 16,5 milhões com 70 anos ou mais, cujo voto é facultativo. Isso significa que 45,5% dos idosos já estão fora da obrigação formal de comparecer às urnas.

Dois universos. Duas psicologias. Dois ritmos de participação. E ainda assim, um mesmo peso simbólico e político.

A estatística revela um paradoxo que exige leitura refinada. Em 2022, a abstenção média do eleitorado brasileiro foi de 20,9%. Entre os idosos, a média foi de 34,5%. Mas essa média esconde um abismo interno. Entre 60 e 69 anos, a abstenção foi de apenas 14,3%. Entre 70 anos ou mais, chegou a 58,9%.

O mesmo grupo social abriga, simultaneamente, a disciplina cívica e o afastamento eleitoral.

O comparecimento reforça essa clivagem. Em 2022, 79,1% do eleitorado geral compareceu às urnas. Entre 60 e 69 anos, o índice foi de 85,7%. Um patamar superior à média nacional em toda a série histórica. Em 2014, 84,2%. Em 2018, 83,8%. Em 2022, 85,7%.

Há, nesse segmento, uma ética do voto. Um compromisso que não se dissolve. Um gesto repetido não por hábito mecânico, mas por compreensão do valor da escolha.

Já entre os eleitores com 70 anos ou mais, o comparecimento foi de 41,1%. Em 2014, 36,4%. Em 2018, 37,3%. Em 2022, 41,1%. Cresce, lentamente. Mas permanece baixo.

O Brasil carrega, portanto, uma reserva eleitoral gigantesca. Não no sentido ideológico. No sentido da presença possível. Milhões de idosos que podem votar, mas que nem sempre votam. Que podem decidir eleições, mas que dependem de estímulos concretos para transformar intenção em gesto.

Em números absolutos, a força é incontornável. Em 2022, 21,6 milhões de idosos compareceram às urnas no primeiro turno. Em 2014, eram 15,3 milhões. Em 2018, 17,7 milhões. Um crescimento de mais de 6 milhões de votos em oito anos.

Entre 60 e 69 anos, o número saltou de 11,3 milhões para 15,4 milhões. Entre os com mais de 70 anos, de 3,9 milhões para 6,1 milhões. Mesmo com menor comparecimento proporcional, o crescimento demográfico amplia o peso absoluto.

Ao mesmo tempo, 11,3 milhões de idosos deixaram de votar em 2022. Desses, 2,6 milhões estavam entre 60 e 69 anos. E 8,8 milhões tinham mais de 70 anos.

Há, nesse silêncio eleitoral, uma energia latente. Uma potência que não se realiza automaticamente. Uma ausência que pode se transformar em presença.

Geograficamente, o envelhecimento também redesenha o mapa político. Rio Grande do Sul lidera com 29% de eleitores idosos. Rio de Janeiro aparece com 28%. Minas Gerais, 26%. São Paulo, 25%. Paraná, Espírito Santo e Santa Catarina, todos com 24%. No outro extremo, Amapá, Amazonas e Roraima têm 15%. Acre, 16%. Pará, 17%.

O país envelhece de forma desigual. O Sul e o Sudeste concentram não apenas mais idosos, mas também o crescimento mais acelerado. Rio Grande do Sul avançou 11,2 pontos percentuais desde 2010. Espírito Santo, 10,2. Minas Gerais, 9,8. Rio de Janeiro, 9,5. São Paulo, 9,1. Santa Catarina, 9,1.

Nos estados mais populosos, esse fenômeno ganha densidade política. Cerca de 16 milhões de idosos estão concentrados nos três maiores colégios eleitorais do país. Ali, onde eleições se decidem por margens estreitas, o voto idoso deixa de ser apenas relevante. Torna-se decisivo.

E, no entanto, há uma incompreensão persistente no debate público contemporâneo. Uma incompreensão quase arrogante. Desprezar o Facebook como “rede de velhos” é um erro estratégico. Um erro analítico. Um erro sociológico.

Os idosos estão mais presentes nas redes sociais do que os jovens quando se observa o tempo de permanência diante das telas. Não apenas estão. Permanecem mais tempo. Leem mais. Interagem mais. Compartilham mais. Têm mais disponibilidade temporal para habitar esse espaço.

Enquanto a juventude fragmenta sua atenção em múltiplas plataformas, em estímulos rápidos, em linguagens breves, os idosos ocupam o tempo digital com outra cadência. Com outra respiração. Com outro ritmo cognitivo.

Desprezar textos longos é repetir o mesmo equívoco. Os idosos leem. Leem com atenção. Leem com memória. Leem com comparação histórica. Leem não apenas para consumir, mas para compreender.

Há, nesse comportamento, uma dimensão antropológica. O tempo vivido produz outra relação com a palavra. A leitura deixa de ser apenas informação. Torna-se interpretação da experiência, reconstrução da memória, elaboração do vivido.

Do ponto de vista psicológico, o envelhecimento reorganiza a percepção. Não elimina a capacidade crítica. Em muitos casos, a aprofunda. Há mais prudência, mais cautela, mais resistência a simplificações.

Politicamente, isso se traduz em uma relação mais exigente com narrativas. O idoso não responde apenas a slogans. Ele responde a coerência. A trajetória. A consistência.

Sociologicamente, estamos diante de um grupo que acumula capital simbólico. Experiência. Memória. Vivência institucional. Capacidade de comparação entre ciclos históricos. Esse capital pesa. E pesa cada vez mais.

O erro das campanhas está em subestimar essa densidade. Em tratar o idoso como previsível. Como homogêneo. Como passivo. Nada disso se sustenta diante dos dados.

O eleitor idoso é múltiplo. É contraditório. É exigente. É decisivo. Há, nesse conjunto, presença contínua no tempo. O jovem entra e sai do sistema eleitoral. O idoso permanece. Ele acumula eleições. Acumula escolhas. Acumula decepções e aprendizados. E transforma tudo isso em voto.

Em eleições decididas por menos de 2 milhões de votos, um contingente de 36,2 milhões de eleitores, com 21,6 milhões de votantes efetivos, não pode ser tratado como detalhe. É eixo. É estrutura. É fundamento.

O Brasil de 2026 será atravessado por essa realidade. Os idosos não são apenas uma categoria etária. São uma força política em expansão. São uma chave interpretativa. Ignorá-los é abdicar de entender o país. Subestimá-los é abrir mão de disputar o futuro.

E há algo mais. Há uma dimensão ética. Valorizar o voto dos idosos é reconhecer o tempo como elemento político. É reconhecer que a democracia também é construída por quem permanece, por quem insiste, por quem continua.

O voto idoso carrega o tempo. E o tempo, quando entra na urna, pesa. Pesa na escolha. Pesa na decisão. Pesa no destino coletivo.

O Brasil mudou. Os números mostram. A metodologia confirma. A realidade impõe. E o tempo, agora, vota.

Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.

Salvador tem a maior queda populacional entre as capitais brasileiras

Salvador apresentou a maior queda populacional entre as capitais brasileiras, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgados nesta sexta-feira (17) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No Nordeste, João Pessoa (18,63%) , Aracaju (7,31%) e Terezinha ( 7,09%) registraram os maiores acréscimos populacionais.

O levantamento também mostra que o crescimento populacional não foi uniforme entre as capitais brasileiras. Enquanto algumas cidades registraram expansão significativa, outras tiveram redução no número de habitantes, como Salvador, Porto Alegre e Natal.

Os dados fazem parte de um conjunto de informações sobre características dos moradores e dos domicílios no país, que também apontam mudanças no perfil da população, como o envelhecimento e a redução da proporção de jovens.

Foto: Reprodução / IBGE

População das capitais brasileiras e respectiva variação percentual no período de 2012 a 2025

Fonte:Cidade Verde.com

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